Da classificação à geração de valor: o papel do conhecimento na gestão de resíduos
Quando conhecer o resíduo deixa de ser apenas uma obrigação e passa a gerar oportunidades?
Nas duas primeiras partes desta série, discutimos a transformação da gestão de resíduos e a importância das normas técnicas para sua classificação e gerenciamento. Agora, chegamos a uma questão estratégica: O que uma organização pode fazer quando passa a conhecer melhor os resíduos que gera?
A resposta pode envolver prevenção, redução, monitoramento, melhoria de processos, reaproveitamento, economia circular e geração de valor.
Monitorar é mais do que caracterizar
Durante a Mesa 1 do Workshop sobre Resíduos na Indústria e na Mineração, Luciano Santos, Diretor Técnico e Geoquímico Ambiental da GeoEnviron Consultoria, chamou atenção para a importância de transformar caracterizações pontuais em uma perspectiva de acompanhamento contínuo. Uma de suas contribuições sintetiza essa necessidade:
“Transformar esses pequenos retratos no monitoramento.”
A ideia é particularmente relevante para atividades industriais e minerais. Um resultado analítico representa uma determinada condição em determinado momento. Entretanto, processos produtivos, matérias-primas e condições ambientais podem sofrer alterações. Por isso, uma gestão ambiental tecnicamente consistente precisa considerar:
histórico + rastreabilidade + representatividade + monitoramento.
Essa abordagem permite que as organizações tenham uma compreensão mais ampla do comportamento dos materiais ao longo do tempo.
A mineração e os grandes volumes de materiais
A mineração apresenta desafios específicos quando o assunto é gestão de resíduos. A atividade envolve grandes volumes de materiais e processos nos quais características geológicas, físicas e químicas precisam ser consideradas. Mas a discussão atual começa a ampliar essa perspectiva.
Em vez de olhar somente para o volume de material que precisa ser gerenciado, torna-se necessário compreender também:
Quais materiais estão presentes?
Quais características possuem?
Existe potencial de reaproveitamento?
Podem retornar a algum processo produtivo?
Podem ser utilizados em outra cadeia?
Esse olhar conecta diretamente a gestão de resíduos à economia circular!
Mineração urbana e novas possibilidades
Durante as discussões do workshop, também foram apresentados exemplos relacionados à mineração secundária e à recuperação de materiais presentes em resíduos. Um dos exemplos mostrou que o Brasil pode produzir determinados minerais a partir da recuperação de materiais presentes em resíduos eletroeletrônicos. Essa possibilidade amplia o próprio conceito de recurso.
Um material que já foi extraído, processado e incorporado à economia pode, ao final de sua vida útil, voltar a representar uma fonte de matéria-prima. É uma mudança importante:
O resíduo pode deixar de ser visto apenas como aquilo que precisa ser eliminado e passar a ser analisado como parte de uma nova cadeia de valor.
Economia circular exige integração
Essa transformação, entretanto, não acontece de maneira isolada. A economia circular exige integração entre diferentes áreas e conhecimentos. Produção, engenharia, qualidade, meio ambiente, laboratório, logística, inovação, suprimentos e gestão precisam dialogar. Durante as discussões do workshop, essa necessidade de colaboração foi reforçada. A circularidade depende de organizações capazes de superar estruturas isoladas e conectar conhecimentos diferentes.
Isso significa que uma oportunidade ambiental pode também ser uma oportunidade de:
Eficiência operacional, inovação, redução de custos, desenvolvimento tecnológico e geração de novos negócios.
Da conformidade à estratégia
Quando uma organização conhece profundamente seus resíduos, ela pode avançar para perguntas mais estratégicas:
É possível reduzir a geração?
É possível alterar o processo?
É possível reaproveitar o material?
Pode ser utilizado como coproduto?
Pode retornar ao processo?
Pode ser utilizado por outra cadeia produtiva?
Nesse momento, a gestão de resíduos deixa de ser apenas uma obrigação ambiental e passa a integrar a estratégia da organização. A gestão ambiental começa a contribuir diretamente para:
melhoria de processos;
redução de desperdícios;
gestão de riscos;
inovação;
sustentabilidade;
eficiência;
economia circular.
E onde entra a competência técnica?
É exatamente nesse ponto que o debate se conecta com a atuação da Rede Metrológica de Minas Gerais. A evolução das normas, dos processos produtivos e das demandas ambientais exige profissionais preparados para acompanhar mudanças, interpretar requisitos e transformar conhecimento em decisões. Como destacou Luiz Busato:
“Hoje publicar a norma não é suficiente. A gente tem que fazer a norma chegar às pessoas, as pessoas compreenderem as normas e usá-las.”
Essa fala resume um dos princípios fundamentais da atuação da RMMG:
Conhecimento precisa se transformar em competência.
Por isso, a RMMG contribui para o desenvolvimento das organizações por meio da disseminação do conhecimento, treinamentos e capacitações, aproximando profissionais das normas, dos requisitos técnicos e das boas práticas aplicáveis às suas atividades.
Capacitar para transformar
Para a indústria, a mineração, os laboratórios e as organizações que atuam na qualidade ambiental, acompanhar a evolução normativa não significa apenas atualizar documentos.
Significa preparar pessoas. Significa desenvolver capacidade para:
interpretar requisitos; avaliar processos; compreender resultados; identificar riscos; tomar decisões; e transformar conhecimento técnico em melhoria.
Nesse sentido, a capacitação passa a fazer parte da própria infraestrutura da qualidade. Uma organização tecnicamente preparada possui melhores condições de responder às mudanças regulatórias, ambientais e tecnológicas.
Um novo paradigma para a gestão de resíduos
As discussões promovidas pelo IBRAM e pela FIEMG mostram que a gestão de resíduos está inserida em uma transformação mais ampla. Não se trata apenas de destinar corretamente.
Trata-se de conhecer, prevenir, reduzir, monitorar, reaproveitar e gerar valor.
A experiência dos especialistas apresentados ao longo do workshop evidencia diferentes dimensões dessa transformação: Luiz Busato reforça a necessidade de compreender e aplicar as normas. Verônica Dias Dominato demonstra como conhecer o resíduo pode contribuir para melhorar o próprio processo. Renato Teixeira Brandão apresenta a perspectiva do órgão ambiental diante da implementação da nova classificação. Luciano Santos destaca a importância de transformar caracterizações pontuais em monitoramento.
Juntas, essas perspectivas mostram que a gestão de resíduos exige muito mais do que conformidade. Ela exige conhecimento, integração e competência técnica.
RMMG: conhecimento que fortalece a qualidade
A transformação da gestão de resíduos passa necessariamente pelas pessoas.
Normas técnicas estabelecem referências.
Tecnologias oferecem possibilidades.
Processos geram materiais.
Mas são profissionais preparados que conectam esses elementos e transformam conhecimento em resultado. É nesse contexto que a RMMG reafirma seu compromisso com o desenvolvimento da competência técnica e com a disseminação do conhecimento junto às organizações. Porque preparar profissionais é também preparar organizações para lidar com mudanças, riscos e oportunidades. E, diante dos desafios atuais da qualidade ambiental, essa preparação é cada vez mais estratégica.
Uma norma pode estabelecer o requisito.
O conhecimento permite compreendê-lo.
E a competência transforma esse conhecimento em prática.
RMMG — Conhecimento que fortalece a qualidade.
Escrito por Kátia Begati
REFERÊNCIAS
INSTITUTO BRASILEIRO DE MINERAÇÃO – IBRAM; FEDERAÇÃO DAS INDÚSTRIAS DO ESTADO DE MINAS GERAIS – FIEMG. Workshop sobre Resíduos na Indústria e na Mineração. Belo Horizonte, 6 ago. 2026.
ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. ABNT NBR 10004:2024 – Resíduos sólidos – Classificação. Rio de Janeiro: ABNT, 2024.
ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. ABNT NBR 10007 – Amostragem de resíduos. Rio de Janeiro: ABNT.

Da classificação à geração de valor: O papel do conhecimento na gestão de resíduos
Quando conhecer o resíduo deixa de ser apenas uma obrigação e passa a gerar oportunidades?
3° ARTIGO DA SÉRIE:
GESTÃO DE RESÍDUOS




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