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MÉDICA BRASILEIRA É DESTAQUE NA REVISTA SCIENCE PELO USO DE ANTICOAGULANTE NO TRATAMENTO DE COVID-19

A pneumologista paulista Elnara Marcia Negri foi destaque na última edição da revista norte-americana Science.



A revista Science deu destaque a um artigo que abordava a evolução do tratamento em pacientes com estado grave de COVID-19. No artigo utiliza-se heparina, um anticoagulante indicado para tratar casos de trombose. O estudo foi conduzido no Hospital Sírio-Libanês de São Paulo, com participação de médicos da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP).


Especialistas entrevistados no artigo contam que chegaram ao medicamento graças a um estranho fenômeno percebido nesses pacientes. Mesmo apresentando uma baixa taxa de oxigênio no sangue, eles afirmavam não estar sentindo nenhum desconforto para respirar.


Isso pode ser explicado porque embora o pulmão permanecesse funcionando regularmente, observava-se já no início da infecção uma sutil coagulação nos vasos mais finos da rede sanguínea que se encontra na extremidade dos alvéolos, impedindo a apropriada oxigenação. A heparina reverteu obstruções nos vasos sanguíneos do órgão, melhorando a respiração e fazendo o oxigênio chegar ao sangue.


A primeira a observar isso no Brasil foi a pneumologista paulista Elnara Marcia Negri, do Hospital Sirio Libanês e da USP (Universidade de São Paulo). À Science, Elnara explicou que em casos graves de covid-19 o maior problema não está no pulmão propriamente dito, mas na coagulação dessa rede sanguínea fina.


“A evasão em cascata de proteínas do sangue leva à coagulação, o que impede a oxigenação adequada", diz

O 1º caso


Elnara conta que percebeu isso quando atendeu sua primeira paciente com covid-19. Era uma idosa que, junto com a dificuldade para respirar, passou a apresentar problemas circulatórios em um dedo do pé.


"Ficou roxo, ao mesmo tempo em que houve uma queda abrupta na oxigenação”, lembra a médica.

Por causa da trombose, a equipe de Elnara medicou a paciente com a heparina, que é um anticoagulante, usualmente utilizado em hospitais. Em pouco tempo o quadro da paciente havia se estabilizado.

“Como a paciente já apresentava sinais de trombose na pele, foi indicado um anticoagulante e em oito horas acontece uma melhora da oxigenação, fazendo com que os dedos voltassem a ter sua coloração normal. Essa paciente teve alta e já retornou para casa”, ressalta Elnara

A partir disso, a médica considerou que o anticoagulante poderia ser um importante recurso para promover o impulso respiratório de pacientes com baixo nível de oxigenação, inclusive os que não estavam apresentando dificuldade para respirar. Com a melhora, os pacientes puderam deixar de usar ventilação mecânica e sair da Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do hospital.


Estudo preliminar


A médica decidiu entrar em contato com médicos do Hospital das Clínicas (HC) da FMUSP que fizeram autópsia em pessoas que morreram de covid-19, verificando que elas apresentavam um grande número de trombos na microcirculação pulmonar, confirmando a hipótese inicial.


“A heparina é largamente utilizada no tratamento de fenômenos trombóticos na pratica clínica”, conta. “Os pacientes foram tratados após o aparecimento da insuficiência respiratória e melhoraram progressivamente, saindo ou não necessitando mais da ventilação mecânica.”

No dia 20 de abril, Elnara publicou seu estudo preliminar detalhando a experiência no hospital com 27 pacientes em quadro grave ou com fatores que contribuíssem para piora progressiva da doença, como: diabetes, obesidade, cardiopatas, dentre outros.


Os pacientes apresentaram uma média de tempo de internação em torno de 10 a 15 dias e todos estão vivos. A maioria já teve alta e apenas três se encontram na UTI ainda”.

Entre os 27, um não recebeu acompanhamento porque foi transferido para outro hospital; dois mantiveram-se em estado grave, e 24 se recuperaram da infecção, incluindo quatro que tinham sido submetidos à ventilação mecânica. Trata-se da mais alta taxa de recuperação já vista desde o começo da pandemia, segundo a Science.


Uso do medicamento


De acordo com a médica, o tratamento com heparina tem custo acessível e já é utilizado no Sistema Único de Saúde (SUS), o que poderá torná-lo disponível para um grande número de pessoas.


Entretanto a médica ressalta que o medicamento é contraindicado para pacientes com grande risco de sangramento, como os que apresentam algumas lesões tumorais, que tiveram acidente vascular cerebral (AVC) recentemente ou foram operados há pouco tempo. Além disso, Elnara alerta que a heparina é um medicamento somente para uso hospitalar. Tomar a droga por conta própria pode levar à morte.


Continuidade da pesquisa


A pesquisa será iniciada após a aprovação pelo Conselho Nacional de Ética em Pesquisa (Conep). Os pesquisadores pretendem consolidar os resultados obtidos nos tratamentos utilizando doses diferentes de heparina em um número maior de pacientes.


“Numa etapa posterior, será feito um estudo em pacientes que se encontrem no estágio anterior à internação na UTI, que vão receber anticoagulante precocemente para evitar a entubação e o uso de ventilador mecânico”, planeja Elnara.

Os resultados preliminares do tratamento foram divulgados na forma de preprint, para informar e orientar outros médicos e estudiosos no Brasil e no exterior. O trabalho conta com a colaboração dos médicos das áreas de pneumologia, hematologia e terapia intensiva do Sírio-Libanês, pesquisadores do Laboratório de Biologia Celular (LIM-59) e do departamento de Hematologia e Hemoterapia da FMUSP, do Instituto do Coração do HC e do AC Camargo Cancer Center.


“O tratamento é para as complicações que o vírus traz para o organismo, destinado aos pacientes em estado mais grave”, aponta a médica. “A prevenção e a cura da doença virão somente com o desenvolvimento de vacinas e medicamentos antivirais”.

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